Fugir

Não basta fugir. É preciso fugir no bom sentido: fugir do tédio, da fome, da guerra.
Não se deve fugir excentricamente, é preciso fugir concentricamente. Fugir o mundo para poder reinventá-lo um dia quem sabe maior, mais verdadeiro, mais justo, mais essencial

Charles Ferdinand Ramuz

Poemas de Álvaro de Campos

Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido,
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso, e foi afinal o melhor de mim, é que nem os Deuses fazem viver…
Se em certa altura
Tivesse voltado para esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também….

Sob Medida

(Chico Buarque)

Se você crê em Deus erga as mão para os céus e agradeça
Quando me cobiçou sem querer acertou na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea, seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto (seu jeito, seu gesto)
Sou perfeita porque igualzinha a você
Eu não presto, eu não presto
Traiçoeira e vulgar sou sem nome e sem lar sou aquela
Eu sou filha da rua, eu sou cria da sua costela
Sou bandida, sou solta na vida e sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo, se ajeite comigo e dê graças a Deus
Se você crê em Deus encaminhe pros céus uma prece
E agradeça ao Senhor, você tem o amor
Que merece

Noite na Taverna – Contos

Foi uma vida insana a minha com aquela mulher! Era um viajar sem fim.
Ângela vestira-se de homen:era um famoso mancebo assim.
No demais ela era como todos os moços libertinos que nas mesas de orgia batiam com a taça na taça dela.
Bebia já como uma inglesa, fumava como uma sultana, montava a cavalo como um árabe e atirava as armas como um espanhol.
Quando o vapor dos licores me ardia a fronte, ela me repousava em seus joelhos, tomava um bandolim e me cantava as modas de sua terra…
Nossos dias eram lançados ao sono como pérolas ao amor:nossas noites sim eram belas!

Álvares de Azevedo

Por quê?
É que meu coração, em meio às delícias,
De uma lembrança ciumenta constantemente oprimido…
Indiferente á felicidade presente, vai procurar tormentos….
No futuro e no passado.

Alex Dumas (Romancista e Dramaturco Francês 1802-1870)

Poema de Álvaro de Campos

Ah, onde estou ou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a aungústia insuportável de haver gente!!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!

(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu).

Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser…

Fernando Pessoa

O Casamento dos Pequenos Burgueses

Chico Buarque
1977-1978

Ele faz o noivo correto
E ela faz que quase desmaia
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a casa caia
Até que a casa caia

Ele é o empregado discreto
Ela engoma o seu colarinho
Vão viver sob o mesmo teto
Até explodir o ninho
Até explodir o ninho

Ele faz o macho irrequieto
E ela faz crianças de monte
Vão viver sob o mesmo teto
Até secar a fonte
Até secar a fonte

Ele é o funcionário completo
E ela aprende a fazer suspiros
Vão viver sob o mesmo teto
Até trocarem tiros
Até trocarem tiros

Ele tem um caso secreto
Ela diz que não sai dos trilhos
Vão viver sob o mesmo teto
Até casarem os filhos
Até casarem os filhos

Ele fala de cianureto
E ela sonha com formicida
Vão viver sob o mesmo teto
Até que alguém decida
Até que alguém decida

Ele tem um velho projeto
Ela tem um monte de estrias
Vão viver sob o mesmo teto
Até o fim dos dias
Até o fim dos dias

Ele às vezes cede um afeto
Ela só se despe no escuro
Vão viver sob o mesmo teto
Até um breve futuro
Até um breve futuro

Ela esquenta a papa do neto
E ele quase que fez fortuna
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a morte os una
Até que a morte os una

…É, meu amigo, só resta uma certeza,
é preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor…

Carta ao TOM 74
Vinicius e Toquinho

O equilibrista

Tocávamos clarinete na corda bamba
subíamos às altas torres do Egito
passeávamos de pára-quedas
no sol sem fim dos dias de fogo
subíamos à capota do avião
por cima das nuvens
recitávamos poemas à lua
tocando nela.
Andávamos nos parapeitos dos edifícios
de um pé só na balaustrada dos abismos
não caíamos dos fios metálicos do circo
andando de cabeça para baixo
nem do alto da torre Eiffel correndo sonâmbulo.

Só na vida é que não nos equilibrávamos.

Sobre o(a) autor(a):
Poeta, jornalista, advogado, nasceu no Recife.
Redator do Jornal do Comércio do Recife. Publicou, entre outros, o livro de poemas “A máquina de Orfeu” e “O pássaro narciso”.

Sacrifício

Havendo a escolha, deve-se preferir um grande sacrifício a um pequeno: pois compensamos o grande sacrifício com a auto-admiração, o que não é possível no caso do pequeno.

Friedrich Nietzsche, “Humano, demasiado humano”

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