Santa crueldade

Um homem dirigiu-se a um santo, tendo nas mãos uma criança recém-nascida. “Que devo fazer com esta criança?”, perguntou ele, “ela é miserável, deformada e não tem vida bastante para morrer”. “Mate-a”, gritou o santo com voz terrível, “mate-a e segure-a nos braços por três dias e três noites, a fim de criar em si mesmo uma lembrança: – desse modo você não gerará novamente um filho quando não for tempo de fazê-lo”.” – Ouvindo isso, o homem partiu decepcionado; e muitos censuraram o santo por haver aconselhado uma crueldade, pois aconselhara matar a criança. “Mas não é mais cruel deixá-la viver?”, exclamou o santo.

Nietzsche, F. A gaia ciência
Fonte: http://www.eternoretorno.com/2009/08/29/vida-em-queda-livre/

No amor abstrato para com a humanidade, não se ama a ninguém, e sim a si próprio.

O idiota. Dostoiévski, F.

Noite na Taverna – Contos

Foi uma vida insana a minha com aquela mulher! Era um viajar sem fim.
Ângela vestira-se de homen:era um famoso mancebo assim.
No demais ela era como todos os moços libertinos que nas mesas de orgia batiam com a taça na taça dela.
Bebia já como uma inglesa, fumava como uma sultana, montava a cavalo como um árabe e atirava as armas como um espanhol.
Quando o vapor dos licores me ardia a fronte, ela me repousava em seus joelhos, tomava um bandolim e me cantava as modas de sua terra…
Nossos dias eram lançados ao sono como pérolas ao amor:nossas noites sim eram belas!

Álvares de Azevedo

O equilibrista

Tocávamos clarinete na corda bamba
subíamos às altas torres do Egito
passeávamos de pára-quedas
no sol sem fim dos dias de fogo
subíamos à capota do avião
por cima das nuvens
recitávamos poemas à lua
tocando nela.
Andávamos nos parapeitos dos edifícios
de um pé só na balaustrada dos abismos
não caíamos dos fios metálicos do circo
andando de cabeça para baixo
nem do alto da torre Eiffel correndo sonâmbulo.

Só na vida é que não nos equilibrávamos.

Sobre o(a) autor(a):
Poeta, jornalista, advogado, nasceu no Recife.
Redator do Jornal do Comércio do Recife. Publicou, entre outros, o livro de poemas “A máquina de Orfeu” e “O pássaro narciso”.

Noite na Taverna

Um dia ela partiu: partiu, mas deixou-me os lábios ainda queimados dos seus e o coração cheio do germe que ela aí lançara.
Partiu; mas sua lembrança ficou como o fantasma de um mau anjo perto do meu leito.

Álvares de Azevedo

Dia do Amigo

Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que “normalidade” é uma ilusão imbecil e estéril.
Oscar Wilde

Poema do amigo aprendiz

Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias…
Fernando Pessoa

Madame Bovary

_ Ora, lá vem os deveres! _ disse Rodolfo. _ Estou farto dessa palavra! Um bando de velhos *papalvos, de colete de flanela, e beatas de aquecedor nos pés e rosário nas mãos, cantando eternamente ao nosso ouvido: o dever! o dever! Ora!
O dever é sentir o que é grande, querer o que é belo, e não aceitar todas as convenções da sociedade, com as ignomínias que ela nos impõe.
_ No entanto….no entanto…- objetvou a Sra. Bovary.
- Não! Por que bradar contra as paixões? Não são há única coisa bela que há na terra, a origem do heroísmo, do entusiasmo, da poesia, da música, das artes, enfim?
- Mas sempre é preciso seguir um pouco a opinião do mundo e observar sua moral.
- Muito bem _ volveu ele_:- Mas é que há duas no mundo.
A pequena, a convencional, a dos homens, a que varia incessantemente, a que brada com força, agitando-se cá embaixo, terra-a-terra, como essa reunião de imbecis que a Senhora vê. A outra, porém, a eterna, essa rodeia tudo e está acima de tudo, como a paisagem que nos circunda e o céu azul que nos ilumina.
Essa conjuração da sociedade não a revolta? Há apenas um sentimento que ela condena? Os impulsos mais nobres, as simpatias mais puras são perseguidos, caluniados e, se duas pobres almas se encontram, enfim, tudo se organiza para que elas não possam unir-se. Tentam, porém, batem asas; chamam-se uma à outra! Oh! Não importa! Cedo ou tarde, daqui seis meses ou dez anos, elas se reunirão, elas se amarão, porque a fatalidade o exige, porque nasceram uma para outra.

Trecho do Livro “Madame Bovary” de Gustave Flaubert…1857…..

“[...] Enquadrar-se, viver como vive o ‘homem comum’, achar correto e bom o que ele acha correto: isso é a submissão ao instinto de rebanho. Há que se levar sua coragem e o seu rigor longe o bastante para sentir como uma vergonha tal submissão. [...]”

NIETZSCHE, F.

Enquanto houver uns olhos que reflectem
outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se
duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!

Gustavo Adolfo Bécquer

A insustentável leveza do ser

“Nesse mundo tudo se encontra previamente perdoado e tudo é, portanto, cinicamente permitido.”

Milan Kundera

« Entradas antigas