Casamento

“Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta:
- Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a velhice?
Tudo o mais no casamento é transitório”.

Nietzsche

Santa crueldade

Um homem dirigiu-se a um santo, tendo nas mãos uma criança recém-nascida. “Que devo fazer com esta criança?”, perguntou ele, “ela é miserável, deformada e não tem vida bastante para morrer”. “Mate-a”, gritou o santo com voz terrível, “mate-a e segure-a nos braços por três dias e três noites, a fim de criar em si mesmo uma lembrança: – desse modo você não gerará novamente um filho quando não for tempo de fazê-lo”.” – Ouvindo isso, o homem partiu decepcionado; e muitos censuraram o santo por haver aconselhado uma crueldade, pois aconselhara matar a criança. “Mas não é mais cruel deixá-la viver?”, exclamou o santo.

Nietzsche, F. A gaia ciência
Fonte: http://www.eternoretorno.com/2009/08/29/vida-em-queda-livre/

Sacrifício

Havendo a escolha, deve-se preferir um grande sacrifício a um pequeno: pois compensamos o grande sacrifício com a auto-admiração, o que não é possível no caso do pequeno.

Friedrich Nietzsche, “Humano, demasiado humano”

Meu irmão! Queres caminhar para a solidão? Queres procurar o caminho que conduz a ti mesmo? Detém-te um pouco e escuta-me. ‘Aquele que procura, facilmente se perde a si mesmo. Todo partir para a solidão é culpa – assim fala o rebanho. E tu fizeste parte do rebanho durante muito tempo. A voz do rebanho continuará ressoando dentro de ti. Queres, porém, percorrer o caminho de tua tribulação, que é o caminho para ti mesmo? Mostra-me, então, teu direito e tua força para fazê-lo’. – Nietzsche, Assim falou Zaratustra

“[...] Enquadrar-se, viver como vive o ‘homem comum’, achar correto e bom o que ele acha correto: isso é a submissão ao instinto de rebanho. Há que se levar sua coragem e o seu rigor longe o bastante para sentir como uma vergonha tal submissão. [...]”

NIETZSCHE, F.

“Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.”

A esperança

Pandora trouxe o vaso que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado “vaso da felicidade”. E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente: então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer; pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens – é a esperança. – Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.
(Friedrich Nietzsche, “Humano, demasiado humano”, Cia de Letras, p. 63, aforismo 71, ano 2001, São Paulo)

O Efeito da Verdadeira Maturidade

A alternância de amor e ódio caracteriza, durante muito tempo, a condição íntima de uma pessoa que quer ser livre no seu juízo acerca da vida; ela não esquece e guarda rancor às coisas por tudo, pelo bom e pelo mau. Por fim, quando, à força de anotar as suas experiências, todo o quadro da sua alma estiver completamente escrito, já não desprezará nem odiará a existência, mas tão-pouco a amará, antes permanecerá por cima dela, ora com o olhar da alegria, ora com o da tristeza, e, tal como a Natureza, a sua disposição ora será estival, ora outunal.
(…) Quem quiser seriamente ser livre perderá de mais a mais, sem qualquer constrangimento, a propensão para os erros e vícios; também a irritação e o aborrecimento o acometerão cada vez mais raramente. É que a sua vontade não quer nada mais instantaneamente do que conhecer e o meio para tanto, ou seja, a condição permanente em que ele está mais apto para o conhecimento.

Friedrich Nietzsche, in ‘Humano, Demasiado Humano’

Como tornar-se o que se é

Derrubar ídolos – isso sim, já faz parte do meu ofício. A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, com ela a humanidade mesma se tornou, até em seus mais profundos instintos, mentirosa e falsa.
A procura por tudo o que é estrangeiro e problemático na existência, por tudo aquilo que até agora foi exilado pela moral. Quanto de verdade suporta, quanto de verdade ousa um espírito? Cada conquista, cada passo avante no conhecimento decorre do ânimo, da dureza contra si, do asseio para consigo… Pois até agora o que se proibiu sempre, por princípio, foi somente a verdade.
Paga-se mal a um mestre, quando se continua sempre a ser apenas um aluno.
Transtrocar perspectivas: primeira razão pela qual para mim somente, talvez, é possível em geral uma “transvaloração dos valores”.
Fiz de minha vontade de saúde, de vida, minha filosofia.
Um homem bem logrado advinha meios de cura contra danos, utiliza acasos ruins em sua vantagem: o que não o derruba torna-o mais forte. Está sempre em sua companhia, quer esteja com livros, homens ou paisagens.
Aqui precisametne é preciso começar a reaprender. Aquilo que até agora a humanidade ponderou seriamente nem sequer são realidades, são meras imaginações, ou, dito mais rigorosamente, mentiras provenientes dos piores instintos de naturezas doentes, perniciosas no sentido mais profundo – todos os conceitos “Deus”, “alma”, “virtude”, “pecado”, “além”, “verdade”, “vida eterna”, …
Uma coisa sou eu, outra são meus escritos. Não quero ser confundido – isso implica que eu próprio não me confunda.
Ninguém pode ouvir nas coisas, inclusive nos livros, mais do que já sabe. Para aquilo que não se tem acesso por vivência, não se tem ouvido.
Quem acreditou ter entendido algo de mim, havia ajustado algo de mim à sua imagem – não raro um oposto de mim, por exemplo, um “idealista”.

NIETZSCHE – ECCE HOMO (1888)

O Demonio

 E se um dia um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:

” Esta vida, assim como a vives e sempre viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes, não haverá nela nada de novo!

Cada dor, cada pensamento, tudo que há de pequeno em tua vida há de retornar. Tudo, na mesma ordem e sequência. E, do mesmo modo, do mesmo modo, esse instante e eu próprio: o demônio. O eterno relógio da existência reiniciará outra vez a contagem do seu tempo, e do tempo das tuas desgraças.Não te lançarias ao chão rangendo os dentes e amaldiçoando o demônio?

Não, não. Responderias medrosamente que nunca te disseram algo mais divino. Diga, nunca te disseram algo mais divino?

Mentirias que queres para sempre a tua própria desgraça? Vê bem, se disseres que sim estará apenas piorando a eternidade