Madame Bovary

_ Ora, lá vem os deveres! _ disse Rodolfo. _ Estou farto dessa palavra! Um bando de velhos *papalvos, de colete de flanela, e beatas de aquecedor nos pés e rosário nas mãos, cantando eternamente ao nosso ouvido: o dever! o dever! Ora!
O dever é sentir o que é grande, querer o que é belo, e não aceitar todas as convenções da sociedade, com as ignomínias que ela nos impõe.
_ No entanto….no entanto…- objetvou a Sra. Bovary.
- Não! Por que bradar contra as paixões? Não são há única coisa bela que há na terra, a origem do heroísmo, do entusiasmo, da poesia, da música, das artes, enfim?
- Mas sempre é preciso seguir um pouco a opinião do mundo e observar sua moral.
- Muito bem _ volveu ele_:- Mas é que há duas no mundo.
A pequena, a convencional, a dos homens, a que varia incessantemente, a que brada com força, agitando-se cá embaixo, terra-a-terra, como essa reunião de imbecis que a Senhora vê. A outra, porém, a eterna, essa rodeia tudo e está acima de tudo, como a paisagem que nos circunda e o céu azul que nos ilumina.
Essa conjuração da sociedade não a revolta? Há apenas um sentimento que ela condena? Os impulsos mais nobres, as simpatias mais puras são perseguidos, caluniados e, se duas pobres almas se encontram, enfim, tudo se organiza para que elas não possam unir-se. Tentam, porém, batem asas; chamam-se uma à outra! Oh! Não importa! Cedo ou tarde, daqui seis meses ou dez anos, elas se reunirão, elas se amarão, porque a fatalidade o exige, porque nasceram uma para outra.

Trecho do Livro “Madame Bovary” de Gustave Flaubert…1857…..

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